8 - Edição 8
Filosofia - O conhecimento
por Teresa Labate

“Como conhecer?”

Essa pergunta é feita pelo homem desde o início de sua existência e a resposta irá variar de acordo com a cultura, o período histórico, o próprio saber acumulado, o aparato tecnológico, etc.

"Como saber se um conhecimento é verdadeiro?"

Ao indagamos sobre um conhecimento, automaticamente, estamos tratando do problema da verdade. A história da busca do conhecimento é a própria história da busca da verdade.

Todo conhecimento implica em dois elementos, que estão sempre, ambos, frente a frente, relacionados:
- o sujeito cognoscente (ou uma consciência) que quer conhecer e
- o objeto a ser conhecido.
A esta relação dá-se o nome de conhecimento.

Conhecer: ato ou processo pelo qual o sujeito se coloca no mundo de forma a estabelecer uma ligação com ele. O conhecimento se torna possível porque o mundo se oferece ao sujeito apto a conhecê-lo. Só há saber para o sujeito cognoscente se houver um mundo a conhecer, mundo este pelo qual ele é parte, uma vez que o próprio sujeito pode ser objeto de conhecimento.

O saber acumulado, pelo homem, através das gerações também é chamado de conhecimento. Nesse sentido, estamos tratando o conhecimento como produto da relação sujeito-objeto, produto que pode ser empregado e transmitido.

O conhecimento pode ser: concreto e abstrato.

Concreto – quando o sujeito estabelece uma relação com um objeto individual.

Abstrato - quando o sujeito estabelece uma relação com um objeto geral, universal.

No processo de abstração, o conceito se torna mais extenso à medida que o conteúdo intuível (imediato) se torna mais pobre. Tomemos como exemplo o conceito do homem. Ele é muito mais extenso que o conceito de amigo. O conceito do homem engloba todo o gênero humano: homens e mulheres; jovens e velhos; amigos ou não. Além do mais, o conteúdo passível de ser apreendido pela intuição sensível (conhecimento direto pelos sentidos) esvazia-se, já que o conceito de homem não tem definido: cara, sexo, idade, cor e nem características da personalidade.

O conhecimento abstrato nos ajuda a organizar e compreender um número imenso de acontecimentos, mas ao mesmo tempo ele nos afasta da realidade concreta.

O verdadeiro conhecimento se dá dentro do processo dialético de ida e vinda do concreto para o abstrato. Este processo jamais tem fim revelando o mundo humano na sua riqueza e diversidade.

É importante também lembrar que a relação de conhecimento implica uma transformação tanto do sujeito quanto do objeto: o sujeito se transforma mediante o novo saber, e o objeto se transforma, pois o conhecimento lhe dá sentido.

Modos de conhecer o mundo

A variação dos modos de conhecer o mundo varia de acordo com a postura do sujeito frente ao objeto de conhecimento. Pode-se conhecer o mundo através: do mito, do senso comum, da ciência, da filosofia e da arte.

Cada um destes meios de conhecimento desvenda os segredos do mundo e lhe atribui um sentido.

O mito – proporciona um conhecimento que é mágico e permeado pelo desejo de atrair o bem e afastar o mal, dando segurança e conforto ao homem.

O senso-comum ou conhecimento espontâneo – é a primeira compreensão do mundo. Resulta da herança do grupo a que pertencemos e das experiências atuais que continuam sendo efetuadas.

A ciência – procura descobrir o funcionamento da natureza através, principalmente, das relações de causa e efeito. Busca o conhecimento objetivo (fundado sobre as características do objeto, com interferência mínima do sujeito), e através de métodos desenvolvidos para manter a coerência interna de suas afirmações. A aplicação da ciência resulta no conhecimento tecnológico.

A filosofia – propõe-se a oferecer um tipo de conhecimento que busca com rigor, a origem dos problemas, relacionando-os a outros aspectos da vida humana, numa abordagem globalizante.

A arte – não nos oferece o conhecimento de um objeto, mas de um mundo, interpretado pela sensibilidade do artista e traduzido numa obra individual que, pelas suas qualidades estéticas, recupera o vivido e nos reaproxima do concreto.

Estes mundos de conhecimento serão tratados individualmente em edições posteriores.

Conhecimento, Pensamento e Linguagem.

Vejamos como se manifesta a relação chamada de conhecimento, entre o sujeito e o objeto.

Todo conhecimento é manifestado por meio do pensamento. Quando pensamos articulamos signos, ou seja, ligamos ou unimos as representações em cadeias.

O pensamento é concreto quando se utiliza de imagens visuais, sonoras, olfativas, táteis, cinestésicas ou de paladar. Ao escolhemos as imagens que farão parte de um filme e as montamos numa determinada seqüência; ao articulamos as cores sobre uma tela, ou, ainda, quando cantarolamos, procurando os sons adequados para uma composição musical, certamente estamos pensando a partir de uma determinada linguagem e mostrando um conhecimento de mundo. Esse tipo de pensamento, chamado não-verbal, está preso ao mundo sensível.

o pensamento abstrato se dá através de idéias e conceitos mais gerais. Neste caso, nos valemos de linguagens como a matemática, da química, da linguagem verbal, ou seja, da própria palavra, que permite um maior grau de abstração.

Por muito tempo, considerou-se que o pensamento só poderia se efetivar através da linguagem verbal. Kant, filósofo alemão do século XVIII, na Critica da razão pura, disse: “Pensar é conhecer através de conceitos”. Nos Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa ser considerada como ciência, ele foi mais longe afirmando: “Pensar é unir as representações na consciência. (...) A união das representações em uma consciência é o juízo. Pensar, portanto é julgar”.

Ao identificar pensamento com formação de conceitos e juízos, Kant ligou imediatamente: pensamento e linguagem verbal.

A linguagem verbal é um sistema simbólico. Os signos são arbitrários com relação ao objeto que representam e, por isso mesmo, convencional e dependente da aceitação social. Tomemos como exemplo a palavra “computador”. Não há nada no objeto entendido como “computador” nos levando a pronunciar essa palavra. Assim, nosso ato de designar um determinado objeto por um nome (computador) é arbitrário. Para sermos compreendidos, devemos estar amparados por uma convenção, aceita pela comunidade dos falantes de língua portuguesa, que garanta que a ligação entre o som “computador” (ou sua forma escrita) e o objeto representado.

O nome, ou a palavra, é o símbolo dos objetos existentes no mundo natural e das entidades abstratas e só existem no nosso pensamento e imaginação. Fixa-se na nossa memória, enquanto idéia aquilo que já não está ao alcance dos nossos sentidos, criando um mundo estável de representações que nos permitem falar do passado e fazer projetos para o futuro.

A palavra, portanto, transcende, vai além da situação concreta, do vivido. A palavra já é uma abstração e com ela elaboramos conceitos e emitimos julgamentos.

É bom frisar, no entanto que as linguagens não verbais também nos permitem pensar, pois são articuláveis em signos. O tipo de pensamento, porém, é diferente, já que essas linguagens não operam por conceitos nem emitem juízos.

Conhecimento, Pensamento e Lógica.

Uma vez que o pensamento é manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, necessitamos estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida.

A lógica é o ramo da filosofia que cuida das regras do bem pensar ou do pensar correto sendo, portanto, um instrumento do pensar. A aprendizagem da lógica não constitui um fim em si, pois ela só tem sentido enquanto meio de garantir que nosso pensamento proceda corretamente a fim de chegar a conhecimentos verdadeiros. Podemos afirmar que a lógica trata dos argumentos, isto é, das conclusões a que chegamos através de apresentação de evidências que a sustentam.

O principal organizador da lógica clássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Órganon. Ele dividiu a lógica em: formal e material.

Lógica Formal – estabelece as regras formais do pensamento, independentemente da matéria sobre a qual pensamos. Ao seguirmos corretamente essas regras, a conclusão se imporá automaticamente. Em outras palavras, a correção ou incorreção lógica do argumento só depende da relação entre as premissas (evidências) e a conclusão.

Lógica Material – trata da aplicação das operações do pensamento, segundo a matéria ou natureza do objeto a conhecer. Neste caso, a lógica é a própria metodologia de cada ciência. Somente no campo da lógica material que se pode falar da verdade: o argumento é verdadeiro quando as premissas são verdadeiras e relacionam-se adequadamente à conclusão.

O raciocínio lógico

Raciocinar ou argumentar é o ato próprio da razão. É um tipo de operação discursiva do pensamento que consiste em encadear logicamente juízos e deles tirar uma conclusão.

O raciocínio vai de um juízo a outro, passando por vários intermediários. Assim, podemos dizer que o raciocínio é um conhecimento mediato: intermediado por vários outros, ao contrário da intuição, que é o conhecimento imediato.

Raciocinamos ou argumentamos quando colocamos os juízos ou proposições que contenha evidências em uma ordem tal que necessariamente nos levam a um outro juízo, que se chama conclusão. E por juízo ou proposição entendemos a afirmação ou a negação da identidade representativa de dois conceitos ou termos. Exemplo: o cão é amigo do homem.

Quando nossos raciocínios ou argumentos são incorretos caímos no que se chama falácia ou sofisma.

Tipos de raciocínio lógico

Podemos raciocinar ou argumentar, logicamente de três modos diferentes: dedução, indução ou analogia.

Raciocínio dedutivo - parte de uma preposição geral (referente a todos os elementos de um conjunto) e conclui outra preposição geral ou particular (referente a parte dos elementos de um conjunto), que se apresenta como necessária, ou seja, que deriva logicamente das premissas.
Exemplos:
Todo metal e dilatado pelo calor.
A prata é um metal.
Logo, a prata é dilatada pelo calor.

Todo brasileiro é sul-americano.
Todo paulista é brasileiro.
Todo paulista é sul-americano.

Aristóteles chamava o raciocínio dedutivo de silogismo e considerava um modelo de rigor lógico.

É importante notar:
- a dedução não nos oferece conhecimento novo, já que a conclusão sempre se apresenta como um caso particular da lei geral;
- a dedução organiza e especifica o conhecimento, mas não é geradora de conhecimentos novos.
-A dedução tem como ponto de partida o plano do inteligível, ou seja, da verdade geral, já estabelecida.

Raciocínio Indutivo – é aquele que após considerar um suficiente número de casos particulares, conclui uma verdade geral. A indução, ao contrário da dedução, parte da experiência sensível, dos dados particulares.

Exemplo:
O cobre é condutor de eletricidade, e a prata, e o ouro, e o ferro, e o zinco...
Logo, todo metal é condutor de eletricidade.

É importante que a enumeração de dados (que corresponde a tantas experiências feitas) seja suficiente par permitir a passagem do particular para o geral. Entretanto, a indução sempre pressupõe a probabilidade.

A possibilidade de erros nos raciocínios indutivos é maior, uma vez que basta encontrarmos uma exceção para invalidar a regra geral. Por outro lado, essa “ida” em direção as possibilidades é o que torna possível a descoberta, a proposta de novos modos de compreender o mundo. Por isso, a indução é o tipo de raciocínio mais usado em ciências experimentais.

Outro tipo de raciocínio indutivo bastante utilizado é aquele que se desenvolve a partir do argumento de autoridade, uma vez que utilizar o testemunho de uma pessoa, instituição ou obra para sustentar uma conclusão é um modo válido de apresentar evidência. Nesse caso, a indução é justificada da seguinte forma: esta pessoa já emitiu vários juízos válidos a respeito do assunto em pauta, e podemos concluir que todos os seus juízos sobre o assunto são igualmente válidos.

Ao usarmos: livros, autores, enciclopédias ou especialistas para fundamentar nosso raciocínio; invocamos sua autoridade no assunto e, por isso, é muito importante citar nossas fontes, para que o leitor possa conferir se a idéia citada não foi deturpada.

A autoridade invocada precisa ser honesta, estar informada sobre o assunto considerado, e seu pronunciamento deve estar baseado em evidências objetivas que possam ser comprovadas por outras pessoas competentes. Nesse caso, a autoridade é digna de confiança e seu testemunho é evidência para a conclusão. O argumento será indutivamente correto.

Há, entretanto, muitos empregos incorretos desse tipo de argumento, dando lugar a falácias lógicas (contra a lógica formal) ou a falácias de falsa premissa (contra a lógica material).

- A autoridade pode ser erroneamente citada ou interpretada.
Por exemplo: quando a afirmação é retirada de seu contexto original e aplicada em outro. Ou quando é feita uma generalização indevida, isto é, algo que é correto para um grupo restrito de elementos é generalizado para toda a espécie. Neste caso, temos a falácia de falsa premissa.

- A autoridade é popular, mas não tem competência para opinar sobre o assunto.
Nesse caso, o apelo utilizado e meramente emocional, uma vez que nenhuma evidência lógica é oferecida. Transfere-se o prestígio da autoridade para a conclusão. É um tipo de argumento incorreto frequentemente usado em propaganda.

- A autoridade, reconhecida por sua contribuição em um determinado campo, opina sobre assuntos que não estão dentro de sua área de competência e, portanto, seu testemunho não é confiável. Tanto o anterior quanto este, exemplifica a falácia lógica.

É preciso tomar cuidado ao sustentar nossas conclusões sobre o argumento de autoridade, pois a confiabilidade de nossa indução dependerá, em grande parte, da confiabilidade da autoridade utilizada.

Raciocínio Analógico - se desenvolve a partir da semelhança entre casos particulares. Através dele não se chega a uma conclusão geral, mas só a outra proposição particular.

Na nossa vida prática, agimos muitas vezes por analogia, fazendo coisas que os outros fazem, com a esperança de obter os mesmos resultados.

As analogias podem ser fortes ou fracas, dependendo das semelhanças entre os dois tipos de objetos comparados. Quando a semelhança entre os objetos se manifesta em áreas relevantes para o argumento, a analogia tem mais força do que quando os objetos apresentam semelhanças não-relevantes para a conclusão.

Assim o raciocínio analógico não oferece certeza, mas tão somente, certa dose de probabilidade. Por outro lado, porque exige um salto muito grande, é por onde abre o espaço para a invenção, tanto artística quanto científica.


Gutemberg inventou a imprensa a partir de pegadas deixadas no chão por pés sujos de suco de uva. Fleming inventou a penicilina ao ver que bactérias cultivadas em laboratório morriam em contato com o bolor que se formara por acaso.

Assim, procurando saber como podemos conhecer e o que garante a verdade do conhecimento, percebemos que o homem constrói o seu conhecimento de vários modos, que cada um depende de um tipo de raciocínio diferente e chega a um tipo específico de verdade, ou seja, a verdade mítica, científica, filosófica, artística são bastantes diferentes umas das outras.


Sem assunto?
Aproveite estes temas para reflexão e debate!
:)

Arme a argumentação, explicitando todas as premissas lógicas, e identifique o tipo de raciocínio usado (dedução, indução, analogia) nas frases abaixo:

a) Uma vez que todos os membros do corpo de jurados eram eleitores, Maria devia sê-lo também, já que era uma das juradas.

b) Depois de misturar os grãos de feijão dentro da saca, retira-se uma amostra formada por grãos de diferentes partes do volume considerado. Um exame da amostra atesta que todos os seus grãos são do tipo fradinho. Conclui-se, então que todos os grãos da saca são de feijão fradinho.

c) Apoiados na teoria da relatividade de Einstein, podemos afirmar que o bem e o mal não existem, a não ser quando considerados no contexto de uma cultura dada.

e) Um doutor, após realizar experiemntos com ratos, concluiu que a substância x não poderá ser empregada em seres humanos, pois acarretará os mesmos efeitos secundários indesejáveis que provocou nos ratos.

f) Marcos recusa-se a comprar um eletrodoméstico da marca Y pois que seu amigo comprou e este apresentou muitos defeitos.

g) Se Deus é perfeito, então Ele existe.

Até a próxima edição!

Fonte base: Temas de Filosofia - Maria Lucia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins.Editora Moderna - 1992.


Essa seção tem a intenção de resumir de forma didática pontos para a compreensão
da filosofia e para a prática da leitora e bom entendimento da mesma.

 

Indique esta matéria
para seus amigos